O que são cadeias produtivas?

Escrito em 24 de novembro de 2021

Por Daniel Mancio

Todos os produtos que consumimos passam por algumas etapas, dentro das cadeias produtivas, antes de chegar aos supermercados e lojas

As cadeias produtivas são, de forma sintética, o conjunto de etapas, operações do processo de organização e transformação da produção de um determinado produto. Essas perspectivas estão presentes e são caracterizadas em todos os produtos e serviços desenvolvidos na sociedade. Além disso, as cadeias produtivas também são conhecidas como linhas produtivas ou redes produtivas, nomenclaturas que variam de acordo com cada região do Brasil.

Ao se pensar de onde veio, por exemplo, o café que consumimos, podemos buscar cada fase desse processo produtivo e logo percebemos que ali, naquela simples xícara de café, existem muitas etapas: insumos transformados, trabalhos incorporados e atores/sujeitos envolvidos. Na esfera da produção de alimentos vemos que as cadeias produtivas vão desde a produção dos insumos básicos, como as sementes, mudas, fertilizantes, água entre vários outros, passando pela produção agrícola propriamente dita, com todas as suas técnicas de manejo, indo até o beneficiamento, agroindustrialização, logística e distribuição e, logicamente, até a comercialização.

Foto: Raízes do Campo/Fellipe Abreu

Portanto, cada produto passa por essa rede antes de chegar à gôndola do mercado e aos consumidores finais.

Um pouco de história

Ao longo do tempo, essa forma de estruturar processos na produção de alimentos carrega consigo a própria história da sociedade e suas marcas da exploração e da concentração de riqueza e renda. Se voltarmos um pouco no tempo (década de 50 e 60) veremos a organização de processos produtivos mais conectados às famílias produtoras, nos quais a produção, transformação e comercialização operavam como processos inseparáveis. O produtor de arroz organizava a produção desde o preparo da terra, os insumos, plantio, manejos, colheita até a secagem, pilagem e armazenagem dos grãos e, muitas vezes, a própria comercialização, normalmente em âmbito local.

Mas como fazer chegar os alimentos até quem necessitava consumir nas cidades? Tal questionamento se dá pelo fato de que, naquela época, estávamos passando por um processo grande de ocupação das cidades com famílias provenientes do campo, alterando a densidade populacional, conhecido também como o êxodo rural. Sendo assim, havia mais gente consumindo do que produzindo.

Aos poucos as famílias de agricultores foram desobrigadas de parte importante de suas atividades no campo e das correspondentes rendas. Isso acabou se reduzindo a uma atividade de simples produção de matérias-primas, integrada de forma submissa aos grandes conglomerados e complexos agroindustriais, que passam a deter os elos mais dinâmicos e lucrativos do processo produtivo. Aliás, foram esses modelos de agroindústrias que passaram a fazer essa ponte entre campo e cidade, ficando com a maior parte da renda. Isso trouxe consequências importantes relacionadas à produção e à circulação de produtos agrícolas em escalas nacionais e internacionais, como também consequências do ponto de vista social. Tais consequências causaram grandes desigualdades econômicas, concentrando a riqueza e impondo o modelo de agricultura predominantemente danoso ao meio ambiente, baseado apenas nos interesses dessas grandes corporações.

A importância da organização das cadeias produtivas

Sem dúvida a possibilidade de organizar as cadeias produtivas e desenvolver produtos e alimentos que possam passar por processos agroindustriais, ampliando o espectro da conservação dos alimentos e da comercialização, permitiu um avanço quantitativo na produção e circulação de alimentos no território brasileiro e na relação comercial entre países e continentes. Isso foi e ainda é fundamental. A organização do processo produtivo em cadeias produtivas possibilitou desenvolvimento de tecnologias, de técnicas e de uma concepção a respeito da agricultura e seus contrapontos.

Por outro lado, surgem alguns questionamentos relevantes a respeito. Como essas cadeias produtivas estão sendo organizadas e como essa forma gera desenvolvimento do campo de forma sustentável e justa? É esse o caminho tomado pelas grandes empresas que centralizam economicamente em torno da produção agrícola? Qual matriz tecnológica está sendo priorizada pelas grandes multinacionais? Como as famílias produtoras estão de fato inseridas nesse cenário?

Distribuição média das receitas e margens ao longo das cadeias produtivas e a imposição técnica

Vários estudos demonstram que a etapa de produção de alimentos no campo é a que retém as menores margens, levando em consideração a distribuição de renda e receita ao longo de cada cadeia produtiva. Em contrapartida, mesmo com altos riscos atribuídos ao elo citado anteriormente, a maior parcela da renda é transferida e agregada aos elos mais dinâmicos das cadeias produtivas, como a produção de insumos, agroindústrias e comercialização.

Essas empresas buscam pela maximização dos lucros, mesmo que isso impacte negativamente de forma violenta o meio ambiente e as pessoas. Além do mais, sob o discurso de única forma de alimentar o mundo, implementam e submetem toda a lógica da organização da produção a essa matriz tecnológica que degrada pessoas e meio ambiente.

O papel da organização das cadeias produtivas para as famílias camponesas

Antes de mais nada, para as famílias camponesas o processo de organização da produção, numa perspectiva de cadeias produtivas, é fundamental. É através dele que buscam sair da submissão econômica e técnica produtiva imposta pelos grandes conglomerados e multinacionais do Agronegócio, que hoje se reduzem a 5 gigantes com força econômica e política no Brasil e no mundo.

Foto: Raízes do Campo/Fellipe Abreu

A agregação de valor ao longo desse processo organizativo da produção gera renda para as famílias de agricultores, viabilizando também trabalho e inserção de jovens e mulheres nas etapas produtivas que antes não eram realizadas pelas famílias, como o beneficiamento, agroindústrias e todos os vários serviços relacionados no âmbito da gestão, dos controles etc. Para as famílias camponesas ligadas às cooperativas que fazem parte da estrutura da Raízes do Campo, a organização das produções não se dá nas mesmas bases em que as grandes multinacionais impõem do ponto de vista técnico/científico. Essas famílias têm preocupações ambientais, sociais e econômicas, que fazem com que se organizem a partir dessas premissas. Portanto, as cadeias produtivas organizadas por essas famílias e suas organizações partem como ponto fundamental de pelo menos 3 princípios básicos: a cooperação e o cooperativismo real, a agroecologia e a geração e distribuição de valor e renda na cadeia produtiva, incluindo a comercialização realizada pela Raízes do Campo.

Outro aspecto importante é a questão da identidade. Como fazer com que a produção dessas famílias, que carregam consigo essa história de vida e muitas lutas, não apareça apenas como fornecedora de matéria-prima? O arroz, o café ou o açúcar produzido nas cooperativas incorporam essa perspectiva também, e isso se traduz nos produtos que passam a ter suas caras e suas premissas e não como um produto qualquer. Passa a representar essa autonomia, essa soberania alimentar e essa qualidade dos alimentos, sendo, portanto, saudáveis.

Por isso que para a Raízes do Campo esse tema é tão importante. Não o tratamos de modo geral, como simplesmente um processo de organização sequencial da produção em etapas, mas, sim, pelas particularidades que internacionalizamos com a comercialização preocupada com a organização das cadeias produtivas na perspectiva agroecológica, de inclusão, de geração e distribuição de renda e alteração da forma de produzir, buscando sustentabilidade e equidade ao longo da produção em todas as suas etapas. Afinal, buscamos na agricultura familiar e camponesa a síntese da nossa forma de pensar e agir.

Escrito por Daniel Mancio

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