De onde vem o nosso alimento?

Escrito em 24 de novembro de 2021

Por Andreia Matheus

Abordar a questão alimentar significa articular uma série de processos e questões, uma vez que a alimentação constitui função básica para a manutenção da nossa condição de vida. Entretanto, mesmo a alimentação sendo fundamental para nossa vida, há uma crescente desconexão entre produção e consumo e pouco se sabe da origem e qualidade dos alimentos que chegam à nossa mesa. Diante desse cenário, uma reflexão se torna cada vez mais necessária: De onde vem o nosso alimento?

O atual modelo de desenvolvimento agrícola brasileiro, orientado pela política econômica, agrícola e externa, passa pela construção da hegemonia do agronegócio, que é baseado na concentração da terra, do poder e da riqueza [1]. O modelo do agronegócio, altamente subsidiado no Brasil, prioriza a produção e exportação de commodities e não se compromete com as necessidades alimentares da sociedade.

Além de priorizar a produção e exportação de commodities, controladas cada vez mais por grandes corporações transnacionais, o modelo do agronegócio, baseia-se na simplificação extrema dos agroecossistemas e na homogeneização dos conhecimentos e das práticas agrícolas, favorecendo um modo de produzir cada vez mais artificializado.

Tais aspectos trazem impactos negativos à saúde humana e, também, ao meio ambiente (águas, solo e ar), uma vez que, são baseados na homogeneização genética, através da monocultura animal e vegetal e no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.

Foto: Raízes do Campo/Fellipe Abreu

As esferas que determinam o que a sociedade deve consumir estão cada vez mais dominadas por grandes corporações que controlam toda a cadeia de produção e que estão se apropriando dos bens comuns estabelecendo uma ditadura do alimento[2]. Esse sistema, baseado em longas cadeias de produção e consumo, tem ocasionado o declínio da diversidade agrícola, desconsiderando os hábitos alimentares e culturais de toda a sociedade através da imposição de uma padronização produtiva e alimentar.

Frequentes problemas de acesso e qualidade dos alimentos têm sido relacionados aos sistemas agroalimentares baseados em longas cadeias de produção e consumo, tais como; redução da diversidade alimentar; consumo de alimentos transgênicos e contaminados com agrotóxicos, aumento de consumo dos alimentos ultraprocessados e com conservantes; redução do consumo de alimentos locais e tradicionais; desconhecimento da origem dos alimentos. Esses fatores contribuem para um cenário duplamente preocupante, em que, ao mesmo tempo que existem milhares de habitantes passando fome ou desnutridos, há também os supernutridos e sujeitos à obesidade.

A garantia de que alimentos saudáveis sejam produzidos e tornem-se acessíveis para toda a sociedade, em diversidade e quantidade suficiente, passa pela mudança no sistema agroalimentar e pela construção da soberania alimentar. Na perspectiva da soberania alimentar a segurança alimentar e nutricional, garantida através do acesso a alimento saudável e diversificado, é compreendida como direito de todo ser humano. Para tal, é necessário o acesso à terra e aos bens naturais para que a agricultura familiar e camponesa possa garantir a produção e distribuição de alimentos para atender suas necessidades alimentares e de toda a sociedade.

A agricultura familiar e camponesa é capaz de estabelecer as bases da soberania alimentar por meio da cooperação e de estratégias locais de produção, distribuição e consumo de alimentos em contraponto a um sistema agroalimentar globalizado. Nesse sentido, as famílias camponesas assumem papel fundamental na construção das bases de uma alimentação saudável, pois, através de processos de organização e resistência nos territórios, promove novas relações sociais e uma agricultura pautada na vida e na necessidade alimentar da sociedade.

Foto: Raízes do Campo/Fellipe Abreu

A essência de uma alimentação saudável pode ser observada na capacidade produtiva das famílias camponesas, nos quais os sistemas de produção baseados na cooperação, se voltam para a produção de alimentos que compõe a base alimentar da população brasileira, tais como, arroz, feijão, mandioca, ovos, carnes, legumes, verduras, frutas dentre outros.

A produção e consumo de alimentos saudáveis está diretamente ligada à construção da agroecologia e seus princípios orientadores, que prezam por uma relação mais harmoniosa com o meio ambiente, pelo fortalecimento da identidade cultural, pela cooperação, pelo estabelecimento de novas relações de gênero e da solidariedade. Nesse sentido, uma alimentação saudável está relacionada com as nossas relações cotidianas e com a forma como produzimos e consumimos os alimentos. Ou seja, uma alimentação saudável decorre de sistemas produtivos saudáveis e relações saudáveis.

A forma como os alimentos são produzidos interfere não somente na saúde de quem vai consumi-los, mas também na saúde dos agricultores e agricultoras e dos agroecossistemas onde os alimentos são produzidos. Ao desenvolver práticas baseadas na agroecologia, teremos maior biodiversidade favorecendo a complexidade dos agroecossistemas, consequentemente um sistema produtivo mais saudável, equilibrado e um solo com vida. Tais aspectos, possibilitaram produção e colheita de alimentos saudáveis diversificados, coloridos, com alto valor nutricional e biológico e de acordo com sazonalidade.

Foto: Raízes do Campo/Fellipe Abreu

A produção de alimentos saudáveis precisa ser compreendido como consequência de modos de vida, que estão associados a processos de organização, a cultura e hábito alimentar de cada localidade. Nesse sentido, as bases de uma alimentação saudável também se constroem ao considerar e valorizar a regionalidade, fortalecendo os hábitos e tradições produtivas e alimentares.

Se alimentar de forma saudável deve ser direito de toda a humanidade. Para tal, é necessário que seja garantido o acesso aos meios de produção e distribuição desses alimentos, de forma a atender as necessidades alimentares e culturais de toda a população.

REFERÊNCIAS

[1] ALENTEJANO, P. A hegemonia do agronegócio e a reconfiguração da luta pela terra e reforma agrária no brasil.Caderno Prudentino de Geografia: Dossiê “Conjuntura no Brasil: retrocessos sociais e ações de resistência, Presidente Prudente, v. 4, n. 42, p. 251-285, dez. 2020a.

[2] SHIVA, V. Grandes corporações promovem uma ditadura do alimento. São Leopoldo Instituto Humanistas Unisinos. 2013. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/noticias/523025-grandes-corporacoes-promovem-uma-ditadura-doalimento. Acesso em: 15 de jun. 2020.

Escrito por Andreia Matheus

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